Marcelo G. Veloso
INTELIGÊNCIA IMOBILIÁRIA EM TORRES
← Publicações

ANÁLISE · 27/09/2026

O VSO é quem está definindo o seu preço.

Cem unidades e dez vendas é 10%. Quarenta unidades e as mesmas dez vendas é 25%. O indicador não mede o seu esforço — mede a oferta ao seu redor.

Por Marcelo G. Veloso · 6 min de leitura

Palestra Marcelo Veloso

Marcelo Veloso

Ao reproduzir, você carrega o player do YouTube ou Vimeo.

O indicador não mede quem vende. Mede quantos vendem junto.
VSO é Vendas Sobre Oferta: quanto do que estava disponível foi comercializado num período. A conta é simples, e é justamente por ser simples que ela incomoda.

Imagine dez unidades vendidas num trimestre. Se havia cem à disposição, o VSO foi de 10%. Se havia quarenta, o mesmo desempenho vira 25%.

O esforço comercial foi idêntico nos dois casos. O que mudou foi o denominador — e o denominador não é escolha de ninguém. É o mercado em volta: os estoques dos concorrentes, os lançamentos do trimestre, as unidades que voltaram por distrato.

Daí vem a conclusão desconfortável: o VSO é, antes de tudo, uma medida da oferta. Quando ele cai, a primeira pergunta não é o que a equipe fez de errado. É quantas unidades a mais entraram na disputa pelo mesmo comprador.
O denominador nacional está mais cheio do que parece.
Ao final do segundo trimestre de 2026 havia 355.290 imóveis residenciais novos disponíveis para comercialização no país. É 2,1% menos que no trimestre anterior — mas 8,2% mais do que um ano antes.

No mesmo trimestre foram vendidas 113.676 unidades e lançadas 107.161. Ou seja: para cada cem unidades vendidas, noventa e quatro novas entraram na prateleira.

Com esses números, o VSO nacional do trimestre fica em torno de 24% — as 113.676 vendas sobre as 470.114 unidades que estiveram disponíveis, somando o estoque de abertura aos lançamentos do período. No ritmo atual de vendas, o que restou equivale a pouco mais de nove meses de estoque.

Vinte e quatro por cento não é um número ruim. Mas é um número que descreve um mercado onde a reposição acompanha a venda quase unidade a unidade. Nesse ambiente, quem ganha participação ganha de alguém — não do crescimento do bolo.
O erro não é o desconto. É a tabela que continuou de pé.
Durante a pandemia as tabelas foram construídas para um mercado com excesso de liquidez. Havia justificativa técnica: prazo alongado, permuta em bem, custo do dinheiro, tudo isso precisava caber no preço de tabela.

O ciclo passou. O hábito ficou.

A consequência é que hoje se anuncia um milhão um ativo que o mercado precifica em setecentos mil, e se espera que a negociação resolva a diferença. O cliente aprendeu a ler isso: ele não negocia mais para ganhar vantagem, negocia porque sabe que a tabela não é o preço.

Foi assim que o mercado treinou o próprio comprador a desconfiar de tudo que está escrito. E é isso que trava a venda — não o juro, não a eleição. Um desconto de 30% ou 35% não é negociação. É a correção embutida vindo à tona.

Nenhum outro setor sustenta um desconto padrão dessa ordem sem que o preço anunciado perca a função. No imobiliário, a tabela virou ponto de partida de uma conversa em vez de uma informação.
Preço virou produto, e o produto sumiu.
O sintoma mais visível é o metro quadrado tratado como regra. Define-se um valor por metro, aplica-se à planta inteira e considera-se o trabalho de precificação encerrado.

Isso inverte a ordem. O valor percebido deveria vir antes: por que este produto, neste ponto, com esta entrega, para este perfil de comprador. O preço é a conclusão desse raciocínio, não a premissa dele.

Quando o preço vem primeiro, a equipe comercial não tem argumento para defender — só espaço para ceder. E cada cessão confirma ao cliente que ele estava certo em desconfiar.

Quando o valor vem primeiro, acontece o contrário: a margem é real, o desconto deixa de ser o assunto da reunião, e a empresa consegue dizer não a uma proposta inconveniente sem perder a negociação. Margem que precisa ser grande é sinal de negócio mal montado, não de proteção.
O cálculo que resolve é de baixo para cima.
A reeducação do cliente não se faz com discurso. Faz-se com a conta aberta, montada na direção inversa da usual.

Comece pelo valor justo da oferta hoje, o que o mercado efetivamente paga por aquele produto naquele ponto. Some o fluxo até a entrega: cronograma de obra, custo do dinheiro no período, correção do contrato. Chegue ao preço. Esse número é defensável, porque cada parcela dele tem origem declarada.

Na prática, considere um empreendimento em lançamento cuja unidade referência é avaliada em R$ 700 mil a valor de hoje, com trinta meses de obra pela frente. A tabela legítima é o que esses R$ 700 mil precisam se tornar para remunerar o capital e a correção ao longo dos trinta meses — não R$ 1 milhão porque a tabela do prédio anterior era essa e o mercado "sempre negocia trinta por cento".

A diferença entre as duas tabelas não é de valor. É de origem. Uma o cliente consegue conferir; a outra ele só consegue testar, e testar significa pedir desconto.
A pergunta que organiza a semana.
Vale responder sobre a tabela que você está usando agora:

"Se um cliente me pedir a origem de cada componente deste preço, eu tenho a resposta — ou tenho apenas o preço do lançamento anterior mais a correção?"

Se for a segunda, a tabela já está negociada antes de a conversa começar. O desconto está lá dentro, e o único efeito de mantê-lo escondido é transferir para a equipe comercial a tarefa de justificar um número que ninguém montou.

O VSO vai continuar ditando o ritmo enquanto a oferta estiver onde está. Não dá para escolher o denominador. Dá para escolher se o preço anunciado é uma informação ou um ponto de partida.

Dados e fontes: oferta de 355.290 imóveis residenciais novos ao final do segundo trimestre de 2026 (queda de 2,1% sobre as 362.953 unidades do primeiro trimestre e alta de 8,2% sobre o segundo trimestre de 2025); 113.676 unidades vendidas e 107.161 lançadas no segundo trimestre; 226.536 vendidas no primeiro semestre, alta de 5,4% — Indicadores Imobiliários Nacionais do 2º trimestre de 2026, CBIC/Brain Inteligência Estratégica, divulgados em 24 de agosto de 2026. O VSO de aproximadamente 24% é cálculo próprio: 113.676 vendas sobre 470.114 unidades disponíveis no trimestre (estoque de abertura de 362.953 mais 107.161 lançamentos); a diferença entre o resultado dessa conta e a oferta final informada corresponde a unidades retiradas do mercado no período, e é inferior a 0,3%. O equivalente em meses de estoque é cálculo próprio sobre o ritmo de vendas do trimestre. Parte da imprensa econômica noticiou a oferta do período como 335,3 mil unidades; o número correto, conforme o release da CBIC, é 355.290.

Transparência: presto consultoria para a R.Dimer Incorporadora, que atua em Torres/RS. Esta análise não indica nenhuma incorporadora nem empreendimento específico. Sempre que uma publicação tratar de um ativo em que eu tenha vínculo comercial, o vínculo será declarado aqui.

Esta publicação tem caráter educacional e analítico. Não constitui recomendação de investimento.